terça-feira, 25 de março de 2014

Bianca sem açúcar


Dia desses começou a sexta temporada de RuPaul’s Drag Race e quem me conhece bem sabe que eu adoro esse reality. Para quem não ligou o nome à peruca, o programa é uma disputa entre um número X de drags (varia de temporada para temporada, nessa são 14), todas se estapeando para ver quem ganha a coroa e o título de America’s Next Drag Superstar. Isso tudo patrocinado pela Absolut, por marcas de cosméticos, de cuecas, de aplicativos de pegação (pra você ver) e ainda com um prêmio em dinheiro para deixar todas mais eufóricas.

Sempre tenho minhas preferidas, e dessa vez não foi diferente. De cara curti muito BenDeLaCreme, April Carrion e Gia Gunn (os nomes são incríveis, não sei de onde sai tanta criatividade). Ben possui uma pegada meio anos 1940, meio pin up tosca; April é nova, do tipo mais feminina; e Gia é irritantemente divertida, que todo mundo ama odiar.

Mas dentre todas as competidoras uma me chamou atenção especial: Bianca del Rio. A história da Bianca é meio inusitada, ela morava em Nova Orleans, mas foi expulsa de lá quando aconteceu o furacão Katrina. Caiu em Nova York, foi produzir figurinos para a Broadway e fazer suas apresentações pela Big Apple. Pelo que andei lendo, ela tem um nome bem marcante no cenário e não é uma drag qualquer que começou a se montar na semana passada.

O que despertou minha atenção na Bianca, entretanto, é o fato de que ela sempre tem uma alfinetada pronta para cada fala das outras drags. É muito perigoso deixar qualquer frase sem finalizar quando Bianca está por perto, porque seguramente ela vai pegar a deixa e fazer uma piada, um comentário ou simplesmente vai jogar na cara alguma verdade, daquelas que fazem rir ou que doem – ou as duas coisas ao mesmo tempo.

O ápice dessa vibe foi no último programa, quando os pais da Laganja Estranja mandaram uma mensagem de apoio (RuPaul A-M-A esses momentos meio Casos de Família). Eles incentivaram a bonita, falaram que querem vê-la sair dali com a coroa e declarando a torcida, fazendo até outras drags se emocionarem. Bianca, que estava na mesma sala, disse que aquilo era muito lindo, a família se apoiando, mas que eles não precisavam se iludir, porque quem ganharia o prêmio seria ela. Cortou a onda da Laganja e de todas as outras que estavam ali junto dela.

Eu tinha uma leve dúvida quanto a essa pegada da Bianca, mas depois da fala em questão eu tive certeza. Bianca não é apenas bitch, ela não faz isso para aparecer e se destacar no meio de tanta gente, o que é fundamental em qualquer reality. A verdade é que Bianca esconde amargura com ironia, com críticas e com frases duras que jogam as outras pessoas para baixo. Quando os pais da Laganja mandaram o recadinho, ela já foi logo cortando o barato da outra porque, no fundo, aquela mensagem não a emocionou de maneira nenhuma. Talvez não emocionasse nem se fossem os pais dela mandando o recado. Enquanto as outras drags até choraram, ela estava tão indiferente que poderia ter lixado a unha, caso tivesse apetrechos para isso.

O mundo está cheio de gente assim. Porque, no fundo, as pessoas não gostam de ser amargas, não gostam de parecer amargas, mas simplesmente é uma coisa que não se muda da noite para o dia. É uma característica que elas aprendem a conviver.

No fundo, creio que Bianca se incomoda com a amargura. Se incomoda tanto, é verdade, que ataca as outras sem demonstrar ressentimento, mesmo que não precise disso dentro do jogo. Ela é uma das drags mais talentosas e com repertório dessa temporada, e chegará tranquilamente à final. Jamais precisaria jogar todas as outras para debaixo do ônibus, poderia simplesmente pisar no acelerador e cruzar a linha de chegada em primeiro lugar. 


[para ouvir depois de ler: La Lupe - Puro teatro]

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